Ué? Onde estão as histórias novas?

A partir de agora as histórias do Devoção ao Comércio estarão no blog Masmorra do Pedro, aproveita e conheça meus outros projetos e textos.

 

ATENÇÃO.

Essas histórias a seguir não devem ser lidas por pessoas sensíveis e/ou que tenham problemas com histórias sobrenaturais.

Todos os relatos aqui contidos são verdadeiros.

 

Habitar uma casa antiga é assim mesmo. Há uma história budista que diz sobre uma mulher cujo filho adoeceu amargamente, desesperada foi ter com um mestre alguma solução para sua dor. Ele então disse que havia, bastava trazer para si um grão de mostarda proveniente de uma casa que nunca enfrentou um luto.

Ela desesperada bateu em todas as casas procurando por alguma família, porém sempre recebia a mesma resposta: “Muita gente já morreu nessa casa”. ao final de sua busca, voltou para o mestre dizendo “O sofrimento me cegou a ponto de eu imaginar que era a única pessoa que sofria nas mãos da morte”.

E realmente. Não há casa antiga que não tenha morrido ninguém. Quando eu não dirigia essa loja em Carapicuíba, trabalhava no controle de estoque de uma filial que ficava em Osasco, cujo dono do imóvel era uma figura de barba branca que vendia caldo de cana na frente da loja.

Certa feita precisei usar de um final de semana para agilizar o controle de estoque, comentei tal fato para com o proprietário que me disse, “Toma cuidado, o antigo inquilino morreu em um incêndio dentro do banheiro da casa”.

Nem quis saber de mais detalhes, lembro de ter ido embora convicto de que era apenas algo para me assustar. No outro dia acordei atrasado e fui para o trabalho à tarde. Acorrentei a bicicleta no portão enquanto olhei de soslaio para a casa, daqui a algumas horas o sol desapareceria e eu tinha que fazer rápido o serviço.

Comecei  a contar as peças enquanto anotava em uma prancheta e me perdi no tempo e trabalho, como a luz estava acesa não notei que já havia escurecido, só percebendo quando fui ao banheiro. Entrei e fechei a porta atrás de mim. Olhei para o lugar e logo em minha cabeça veio a história do incêndio. Realmente o imóvel era muito velho, com seus tacos soltando e pintura descascada, o banheiro era o único lugar que fora reformado recebendo ladrilhos e móveis novos.

Decidi ser rápido. Fiz minhas obrigações fisiológicas e quando lavava a mão e então ouvi passos. É nesse momento que você começa a pensar melhor na vida. Fiquei um tempo em silêncio com a mão sobre a torneira fechada esperando ouvir de novo. Nada.

Voltei ao trabalho ainda assustado quando ouvi novamente os passos, fui ao corredor vazio escuro e silenciosos esperando que agora eu pudesse identificar de onde vinha, porém nada aconteceu.

Enfurnei-me em outra sala para continuar a contagem quando o telefone tocou. Lembro que era na época do filme O Chamado e o pulo que dei quase derrubou as prateleiras que formavam apertados corredores. Deixei tocar quatro vezes e por fim atendi com meu coração quase saindo da boca. Nenhum som do outro lado da linha. Desliguei o telefone e tomei a decisão, sábia, de não mais trabalhar à noite.

Fechei tudo, subi na bicicleta e dei uma última olhada para o ar tétrico da casa à noite, com suas sombras projetadas em figuras sinistras. Melhor ir embora e só voltar quando tudo estivesse claro.

 

 

Não que eu esteja querendo te assustar, mas é melhor você saber mais sobre o projeto clicando aqui.

Segundo o dicionário, a gaxeta é uma junta de material compressível para ser colocada entre duas superfícies metálicas, a fim de vedar a junção contra vazamento de gases ou de líquidos. Popularmente chamada de borracha, por causa de seu material e falta de informação, a gaxeta é aquela guarnição que fica na porta de sua geladeira, responsável por manter o frio do lado de dentro e o calor do lado de fora.

Porém vender uma dessas não é fácil.

Começam as complicações na hora do pedido:

– Bom dia, eu queria uma borracha pra minha geladeira.

– Trouxe a marca, o modelo e a medida?

– É uma Brastemp.

– E o modelo? E a medida?

– Não sei. Só sei que é Brastemp.

Esse é o clássico. A pessoa acredita que todas as gaxetas são iguais perante aos olhos de Deus, logo elas são, de alguma forma estranha, padrão para todas as geladeiras. Para você ter uma ideia de quão absurdo pode ser essa afirmação vá a uma loja de eletrodomésticos e repare nas geladeiras, são iguais? São todas do mesmo tamanho? A pessoa fica uma hora escolhendo o modelo da geladeira em uma loja para ver a que melhor se encaixa no tamanho e suas necessidades e depois tem a coragem de dizer que são todas iguais.

 

geladeiras

 

Tudo igual

Pois é.

Porém alguns são conscientes de que são diferentes as suas geladeiras e aparecem com as piores descrições possíveis

– Qual o modelo da sua geladeira?

– É uma branca, “bujudinha”.

Perfeito. Realmente a cor da geladeira ajuda muito. Fico imaginando alguém comprando uma roda para o carro dizendo que é um “Quatro portas, cor preta”, “Claro senhor, tenho rodas para carros pretos, me acompanhe”.

Agora vamos relembrar as três característica: Marca, modelo e medida.

A terceira, e última, é a que mais dá trabalho, quando falo medida me refiro àquela tradicional que usamos, em centímetros, uma das unidades base do sistema CGS de unidades, mas nem sempre dá certo também.

– Trouxe a medida?

– É 45 por 27.

É esse momento que você pensa se a geladeira é da Barbie. Lembra daquelas réguas escolares de acrílico que você tinha quando pequeno? Ela tinha trinta centímetros, e essa geladeira é um pouco maior que isso.

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Quem nunca bateu no coleguinha com uma dessas curte aqui!

Quando a pessoa não tem a aptidão necessária para manusear uma trena, ou simplesmente não a têm. Pedimos que meça com um barbante e o corte no tamanho de sua gazeta. O que também gera alguns problemas.

– Trouxe a medida?

– Não tinha trena, mas medi sim, são dez palmos e três dedos de altura…

Sim. Há pessoas que acreditam piamente que em um mundo de medidas exatas podem ser utilizados métodos como palmas e dedos. E daí que há diferenças de dois centímetros entre gaxetas? Não há nada mais exato que palmas!

– A medida?

– Está aqui, trouxe esse barbante.

(desenrolo o barbante)

– Mas onde está a altura e largura?

– Medi tudo de uma vez só, passei o barbante no comprimento todo e cortei,

– Como eu vou saber qual era a altura?

– Não tem como saber?

Claro que deve ter. Afinal geladeiras são quadradas, logo todos os lados são iguais! E não foi um só que mediu o perímetro e esperou que adivinhássemos qual era a altura e largura. Mas ainda tem o melhor de todos.

– Trouxe a medida?

– Trouxe sim

Então ele retira um elástico da bolsa, primeiro ele estica em uma posição e diz que essa é a altura, com o mesmo elástico afrouxa um pouco e diz que é a largura.

Como faz para explicar para uma pessoa dessa que esticar um elástico não pode ser considerado uma medida exata? Porque se a pessoa em algum momento acreditou que pudesse ser, fica um pouco difícil convencê-la do contrário.

Pego o elástico estico um pouco além da “medida” dele e pergunto se não é assim. Ele fica um pouco receoso e fala que sim, comprimo para que fique um pouco menor e pergunto de novo. ele começa ficar na dúvida, coça a cabeça e diz que vai arrancar a gaxeta e trazer.

– Negócio complicado esse de borracha!

– É amigo, é bem complicado mesmo.

 

 

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Época de eleição é sempre uma época de agrados ao comércio.

Veja você, se nos anos que se passam ninguém nota o comerciante ali, parado à beira do balcão, incansável em sua tarefa de atender ao público,  quando se aproximam as eleições a coisa muda de figura. Principalmente em eleições municipais, naquelas que se escolhe o prefeito e vereadores. Quanto mais perto de Outubro, mais candidatos aos cargos públicos aparecem para dar bom dia, perguntar como andam as coisas e se o movimento está bom.

É claro que tudo isso com uma superficialidade calculada. Ninguém quer saber realmente os teus problemas ou da cidade. É como quando te perguntam “Tudo bem?”, ninguém quer realmente saber de sua dor de dente ou das tuas dívidas, só desejam iniciar uma conversa.

Então os candidatos aparecem, dizem seu nome, contam como desejam mudar a cidade para melhor e quando você percebe já tem alguns santinhos no balcão, junto de jornais elogiosos e um pôster na parede.

Eu tenho uma política clara quanto a isso: Não.

“Posso colocar esse pôster?” Não

“Posso deixar uns jornaizinhos?” Não

“Candidato Fulano de tal! O melhor para nossa cidade!” Não

Simples assim. Inclusive instruo meus funcionários a também não aceitarem panfletos a não ser que tenham interesse e se for o caso não o mantenham no balcão.

Isso me lembra de um funcionário que tive, ele tinha vindo do interior e seu conhecimento político beirava ao risível, com comentários do tipo “Presidente? Não sei quem em votar aqui, mas se eu tivesse na minha cidade eu saberia”. Orientei o rapaz para que não aceitasse propagandas políticas e ele prontamente passou a não deixar que colocassem ou dessem nada.

Então veio o prefeito da cidade.

Ele parou no balcão e cumprimentou todos, tinha um calhamaço de jornais na mão. “Queria deixar aqui esses jornais do candidato que estou apoiando…”, o funcionário não pensou duas vezes, “O senhor não pode deixar isso aqui não!”. Lembro dos outros funcionários, e eu também, empalidecendo. O prefeito pegou seus jornais e saiu. Perguntei se ele sabia quem era o homem que estivera ali e ele disse que o rosto não lhe era estranho.

Conforme a eleição se aproxima e aparecem cada vez mais candidatos, bandeirolas, adesivos… As ruas vão ganhando cores e passado o dia da eleição tudo some e a cidade volta a ser cinza. Mas se engana caso você acredite que só verei eles novamente daqui à quatro anos, na segunda-feira depois das eleições ainda tenho contato com os candidatos, ou ao menos o que sobrou deles. Uma pilha de santinhos me espera na calçada, prontos para serem varridos para a lixeira.

1349618699165-lixo-de-campanha(A foto não foi tirada em frente ao meu estabelecimento. Assim que passarem as eleições eu substituo por uma tirada por mim)

 

 

Meu nome você conhece e confia. Sou Pedro Moreno, candidato à vaga de comerciário e escritor de nossa cidade, tão maltratada pelo descaso público. Conto com o seu voto, para que em Outubro possamos mudar essa situação e trazer o desenvolvimento para nossa cidade. (Para contribuir com a campanha, clique aqui)

 

O fornecedor encostou no balcão, cumprimentou, perguntou se eu precisava de alguma coisa e ficou ali olhando para a rua.

Esses são os sinais de que há algo. E logo esse algo veio na forma de um cheque voltado. Eu já falei sobre cheques aqui e continuo achando-os uma forma de pagamento inesperada, afinal não são garantia de nada. Peguei a folha mal escrita e conferi atrás de quem era o filho.

Sim, se pegar um cheque é arriscado, imagine de terceiros. Isso é algo muito comum no pequeno comércio. O mecânico não tem uma firma aberta, logo não possui uma máquina de cartão e acaba aceitando cheques que troca na loja por peças para fazer outros serviços.

Constava o nome atrás e depois de pago tratei de ligar para o mecânico responsável, no cheque o carimbo do banco tinha o motivo 35, precisei ver na lista de qual se tratava e para minha surpresa “Cheque fraudado”. Suspirei bem fundo.
Ninguém atendeu ao telefone.

Depois de uma semana o mecânico apareceu e eu falei do cheque. Disse que não estava com o dinheiro, mas iria trazer.

Duas semanas passaram e ele já não comprava comigo. O encontrei por acaso andando na rua e perguntei do cheque. Ele disse que seu filho tinha sido atropelado e estava sem dinheiro, mas iria pagar.

O tempo passou. Foram uns cinco meses quando eu o vi novamente, estava comendo um pastel e tentou ir embora quando me viu, mas percebeu que eu já o tinha notado e resolveu enfrentar.

– E o cheque?
-Meu filho foi atropelado semana passada…
– Cara, teu filho foi atropelado DE NOVO?!
– Não… Quer dizer… Sim.

Ele não pagou o cheque e sumiu de vez. Foi aparecer, com a sua melhor cara-de-pau que conseguiu, depois de 5 anos não mencionou os cheques pediu a mercadoria pagou com dinheiro trocado. Com medo de que talvez eu pegasse o troco para saldar o cheque.

Ele está vindo há pelo menos um ano agora, sempre de cabeça baixa, com dinheiro trocado falando por favor e obrigado. Lembra muito um cão arrependido que urinou no lugar errado.

Esqueça o pecado original. Comer uma maçã? Muito “geração saúde” . E outra coisa, sério mesmo que uma cobra falante consegue te convencer de comer uma maçã? Devo imaginar Eva falando “E daí que ela é uma cobra (com  braços e falante), ela parece muito mais confiável que o Senhor”.
cobraVocê aceitaria uma maçã?

Pior que o pecado original é o cheque.

Na Idade Média os senhores feudais depositavam seu ouro em um único lugar que dispunha a segurança necessária: A oficina do ourives. Em troca este dava um papel que continha o valor entregue e qualquer um poderia sacar o equivalente em ouro. Depois no século XIV o comércio surgido com os burgueses ganhava proporções nunca vistas e os documentos de valores fixos começaram a se tornar impraticáveis, dando o lugar para algo que poderia ser preenchido, ganhando o nome provisório de “letras de câmbio à vista”.

Imagine você um senhor feudal que deseja adquirir uma casa e pensa “Se eu levar essa quantidade de ouro serei assaltado!”, porém a casa tem um valor quebrado e você perderia parte de seu ouro dando mais do que vale tal imóvel. Como resolver? Preenchendo você mesmo seu próprio papel com o valor exato da compra. Perfeito não? Agora se te roubassem bastava ser torturado para conseguirem tua assinatura e sacarem todo o seu ouro. Bem melhor que apenas ter teu ouro roubado e sair ileso…

É o que costumo falar: Se cheque fosse bom, você levaria ao supermercado um cheque de outra pessoa e o caixa daria o troco.

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Isso é um “cheque assustado”

Mas não o cheque não é garantia de pagamento. A conta pode não ter fundo, o cheque pode ser sustado ou mesmo ser falso. Quando eu comecei o trabalho na loja havia uma pilha de uns trinta cheques “voltados”, cada um com seu motivo, mas o mais comum era o 12.

Para quem não trabalha com cheque deixa eu te explicar. O carimbo escrito “Motivo 12” é o que faz um comerciante sentir aquele frio na espinha que virgens sentem quando se deparam pela primeira vez com um pênis. Você sabe que pode doer e não há muita coisa a se fazer. O motivo 12 é o “cheque sem fundos – 2ª apresentação”. É a legitimidade que agora a cabeça já entrou e pode te dar um prejuízo se você não se cuidar.

É claro que ainda tem os protestos, os advogados e pessoas que, por um motivo ou outro, tem um descuido mas tratam de pagar o cheque assim que são avisados. Esses são poucos.

A grande maioria é os cheques dos “cliente não me pagou”, “esse cheque não é meu” ou histórias escabrosas que envolvem assassinatos.

Aos poucos os cheques ficam antigos e “caducam”, se você não sabia dívidas sofrem de uma espécie de Alzheimer e depois de 5 anos simplesmente são esquecidas e o nome pronto para fazer novas dívidas. Cheques deveriam vir com um aviso de “esse documento se autodestruirá em 5 anos. Boa sorte!”.

Aos poucos a pilha de cheques diminuiu. Comecei a deixar cada vez mais restrito compras com cheques e o consumidor passou a preferir o pagamento com cartões de crédito (que seja louvado quem inventou isso!).

Os últimos voltados, em torno de uns trinta cheques, eu estreguei para uma instituição de caridade. Eles pegam os cheques caducados e junto de um advogado cobram os valores e com isso compram óculos para crianças pobres.  Trabalho realmente interessante.

Agora vamos fazer um exercício de imaginação. Pense em um lugar perfeito, cheio de vegetais e animais que se chamam conforme você assim decidiu. Ao seu lado a mulher perfeita, feita à partir de sua própria costela. De repente um sibilar surge por trás de uma árvore, aos poucos o corpo escamoso desce sinuosamente pelo tronco, se aproxima de sua mulher e um sorriso matreiro pergunta “Aceita cheque?”.

Diferente de cheques, você pode escolher pagar ou não, se quiser contribuir com esse projeto clique aqui.

– Cara, não tem como eu ficar te devendo e já trago?

Não, e vou explicar o porquê.
Se a pessoa está com um problema para ser resolvido e não quer perder tempo indo buscar o dinheiro para depois voltar, quem dirá trazer tal dinheiro depois que seu problema já está resolvido.
Ao longo desses 8 anos trabalhando com comércio já perdi muito dinheiro assim. Além disso já perdi chaves de fenda, alicate, um cabo de chupeta e uma escada nesse empréstimo de “já trago”.

Agora vou contar uma história sobre o tema.

Certo dia eu estava atendendo no balcão quando apareceu um rapaz pedindo por um óleo para compressores. Tal óleo custava exatos R$ 15,00, quando eu falo “exatos” é porque sim, eu calculei uma porcentagem de ganho para ele baseada no seu valor, passado por mim pelo fornecedor, mais custos que enfrento para manter o negócio funcionando e um pequeno lucro.

Coloquei o óleo no balcão e anunciei o preço, o rapaz arregalou os olhos e tirou uma nota amassada de R$ 10,00 de seu bolso dizendo que só tinha esse valor e se poderia trazer o restante depois.

Na minha cabeça se forma aquele turbilhão de resposta mal educadas, começando pelo “não te conheço” até o “se você quer me roubar, aponta logo a arma”, mas não. Comércio é lugar de pessoas ponderadas, calmas e pacíficas e no alto de minha paciência apenas disse, “não tem como”.

Aí começa o tormento, “preciso desse óleo para terminar o serviço”, “te trago em menos de uma hora” e o melhor “você não confia em mim?”. Realmente não confio na pessoa trazer o restante do dinheiro, como não confia em ninguém um gato arisco. Nós dois sabemos que acabaremos sendo enganados.

Com o pedido negado, o rapaz sai batendo o pé e bufando enquanto me xinga mentalmente de coisas que não quero imaginar.

Deu uma hora e ele voltou, dessa vez segurando uma nota de R$ 50,00 com as duas mãos, tal qual criança pequena que vai à padaria e leva orgulhosa o dinheiro e a missão que lhe foi confiada.

Mas o destino é um pregador de peças nato. Não sei se ele realmente me xingou mentalmente, mas se o fez o Karma resolveu agir e ele tropeçou na guia enquanto atravessava a rua em direção a loja, acabou por rasgar o dinheiro na minha frente.

Eu lembro de ter me assustado. Não é todo dia que você vê dinheiro sendo rasgado, a não ser em alguns filmes ou órgãos públicos. O rapaz continuou firme, apesar do susto e entrou na loja pedindo pelo óleo. Cara… Eu não iria aceitar uma nota rasgada no meio.  Caso ainda tivesse a chance de eu ir ao banco aquele dia ou fosse o rapaz um cliente ocasional, que não era, eu poderia até pensar, mas não aceito uma nota rasgada de um estranho.

Diante da nova negativa ele ficou mais bravo ainda e conseguiu soltar a pérola “Mas eu acabei de rasgar”.

Claro! Agora fez toda diferença!

“Amigo, você pode ter a rasgado agora ou no mês passado, isso não faz diferença.” respondi no maior tom cordial possível que conseguia fazer naquela situação insólita. Ele ainda olhou para a nota rasgada como se não acreditasse na falta de sorte, voltou a sair, bater o pé e me xingar mentalmente.

Voltou depois de uma hora, agora com uma nota de R$20,00 e inteira. Jogou no balcão e gritou: “Toma essa merda de dinheiro”, dei o óleo, o troco e sorri.

“Obrigado e bom serviço”.

🙂

 

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– Oi, eu vim pegar meu rádio.

No começo pareceu bem simples, a mulher queria o seu rádio. Porém o assunto é um pouco complicado e ficará pior com o desenvolvimento.

Para começar o rosto da mulher é completamente estranho para mim. Nunca a vi e se algum dia, por acaso, nossos caminhos se cruzaram eu não tenho a menor lembrança disso. Depois temos o fator rádio, que também desconheço e com certeza não está de minha posse.

– Senhora, de que rádio você está falando.

Pareceu uma boa perguntar de que rádio ela falava, quem sabe assim ela me dava mais detalhes do mistério e eu, encarnando um Sherlock Holmes, poderia deduzir o mistério e fechar o caso, ao final ainda acendia meu cachimbo e soltava um “Elementar…”.

– Do rádio que eu deixei aqui para consertar.

Então o mistério torna outros ares.  Estou sendo acusado de ser um técnico em eletrônica. Logo eu! Que trabalho com comércio puramente, a barganha de mercadorias por dinheiro como os burgueses do século XI já faziam e passaram esta arte de geração em geração até mim. Tenho que desfazer esse equívoco antes que algo pior aconteça.

– Senhora, aqui nós não fazemos consertos.

Ok. Estou indo bem.

– Como não? Eu deixei meu rádio aqui para ser consertado há duas semanas e até agora nada! Não recebi uma ligação de vocês e estou lá em casa, sem rádio.

Acho que estou enfrentando uma fera e não uma mulher. Talvez argumentos e racionalizações sejam o melhor caminho aqui, mas por enquanto farei o jogo dela.

– Você trouxe a nota?

Por essa ela não esperava!

– Trouxe sim! (Jogou a nota no balcão)

Peguei a nota que constava o recebimento do rádio, a examinei bem e constava o modelo, quanto ficaria o conserto e que dia poderia pegar.

– Senhora, você está no número 68 e deixou o rádio para conserto na eletrônica que fica no 50.

Momento de silêncio. Ela pega a nota para ver se não estou mentindo. Devo ter cara de enganador.

– Eu tenho certeza que deixei aqui.

Talvez uma argumentação lógica não seja o suficiente.

– Senhora, dá uma olhada no número 50 se seu rádio não está lá.

Era minha última chance, estava arriscando tudo que eu tinha ali. Ela pegou a nota e desceu a rua. Deu uns dez minutos subiu com o rádio na mão, não sem antes atravessar a rua para não passar na minha frente.

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Elementar, meu caro leitor. Elementar.

 

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Algumas vezes tenho alguns clientes com uma boa empatia que são capazes, como diz a qualidade, de capturar meus sentimentos.

Hoje estava atendendo uma moça que queria falar com minha mãe, eu pedi para que aguardasse enquanto ela chegasse. Enquanto isso veio uma senhora para pedir uma peça e reproduzo o diálogo

– Eu queria uma pecinha do meu fogão.

– Que peça seria.

– É uma pecinha que fica atrás, você coloca ela na mangueira assim (fazendo gestos com a mão)

– Não vou ter essa peça.

– Mas você sabe do que estou falando?

– Creio que não senhora, porém tenho pouquíssima coisa de fogão. Nós trabalhamos mais com máquina e geladeira e entre as peças que tenho, nenhuma se encaixa na descrição.

– Você não tem fogão em casa? (Em tom irritado)

– (Respiro) Tenho, mas no meu é um cano direto onde vai a mangueira.

Percebendo que não conseguiria ela olhou para a moça que aguardava, não agradeceu e foi embora.

A moça que aguardava minha mãe, olhou para mim “Nossa… Acho que te salvei de uma. A senhora já estava ficando brava” disse. Eu apenas respondi que por aqui era algo normal.

E realmente é.

Parando para pensar eu aprendi a não esperar “Bom dia” ou tampouco ouvir um “Obrigado”. Acostumei a ser maltratado por não saber o diâmetro do cabo do freio de um Fusca, mesmo dizendo que a loja é de refrigeração e eu não tenho um Fusca ou sou mecânico de automóveis.

Realmente a gente se acostuma com muita coisa…

“Para que ser funcionário? Seja seu próprio patrão e abra um comércio!”

Não. Fuja enquanto pode.

Para iniciar este blog, contando as histórias que acumulei em tanto tempo de comércio, quero lhes dar um conselho: Comércio é para quem gosta.

Uma vez minha esposa falou sobre o fato de sua vó ter se casado e conhecido seu cônjuge apenas quando estava no altar. A senhora disse algo como “O amor vem com o tempo”. Muito bonito isso, o amor vir com o tempo da relação, mas no comércio as coisas não são assim, se você não gosta, não adianta. É mais fácil um casamento do que administrar uma loja. É claro que se você aprender a gostar de ser um comerciante, as coisas ficam fáceis e a prosperidade virá. Mas tem que gostar!

Tem que amar perder finais de semana, tem que sentir um tesão a lhe invadir o corpo toda vez que for maltratado por um cliente, tem que desejar dias difíceis os quais não se vende nada, tem que gostar de lidar com faltas de funcionários… Comércio é sacrifício diário.

Tem aqueles que nasceram para o comércio, essa fina nata de pessoas não consegue ficar muito tempo atrás de um balcão e logo se veem administrando uma cadeia de lojas, fazendo com que o atendimento ao cliente vire apenas um hobby que goste de cultivar.

Desses eu tenho inveja.

No dia 18 de Setembro de 1991 meu pai resolveu ser seu próprio chefe. Alugou um imóvel de sua sogra e montou uma loja de refrigeração em Carapicuíba, enquanto ainda trabalhava em um banco à noite. Sentiu que o negócio engrenava e pediu demissão.

Meu pai era um cara que nasceu para o comércio. Era simpático e atraía lealdade das pessoas, seja clientes, fornecedores ou funcionários. Como empregado era péssimo, discutiu com todos os chefes que teve e mudava constantemente de departamento.

Começou com uma loja pequena e quando morreu já tinha três que em nada lembravam o tamanho da primeira.

Com sua morte me veio como herança uma delas. Na época eu estagiava como assessor de imprensa em uma das secretarias públicas de São Paulo, ganhava algo perto de R$ 350,00 por meio período, mas eu gostava do que fazia. Como minha mãe agora dependia de mim, larguei os estudos e o emprego para administrar o lugar. Cargo esse que mantenho até hoje, apesar de sonhar com uma venda e mudança de emprego, fazendo o caminho inverso, trabalhando de noite até conseguir me sustentar e vender a loja.

Esse diário de minhas memórias na loja pode ser meu último esforço de compreensão de meu ofício. Quero deixar aqui registrado todas as alegrias e tristezas que um comerciário passa, para que um dia eu possa reler e sorrir lembrando de um tempo que já é passado.

 

 

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